domingo, 22 de janeiro de 2012

Barco-Ilha-Lua do Mel


Ele, o olhar um tanto perdido. Constrangido? Apaixonado... nostálgico talvez. Mas tranquilo.
Ela, um sorriso escondido no canto do lábio. Colo avermelhado pelo sol de há poucas horas. Olhar no mar que vem, futuro?
Um casal em um barco.
Mãos dadas.
Desço um pouco o olhar ...
Na outra mão ele leva um pedaço de véu e um pacote de guardanapos de papel. Aberto. Daqueles vagabundos.
Ela não leva nada nas mãos.
Mas o vestido é branco, bordado de brilhos. O tecido reflete a luz do dia alto, passado meio-dia.
Noivos!? Ele usa calça preta e a camisa é igual à da maioria dos garçons. Branca, tecido barato. Poderia ser um garçom.
Mas o figurino não combina com o barquinho que parte da Ilha do Mel. Noivos, sim.
Ajusto o foco do olhar, apuro a análise. Esse casal sentado à minha frente passa a me interessar muitíssimo.
Desço um pouco mais o scaner: A calça preta do rapaz, suja nas pernas, de algum líquido que deixou resíduos brancos. Ajusto o foco no detalhe: areia, espuma. Por toda a calça. Pés descalços.
Silêncio. Nenhuma palavra entre eles.
Os dois a quatro palmos de mim, frente a frente. Nossas pernas se encostam levemente.
Procuro o olhar de um deles. Um sorriso, algum sinal que me permita uma comunicação, uma cumplicidade, qualquer coisa que me autorize fazer parte dessa trama. Eles estão longe dali. Cada um olha para um lado. Olhar vago. Pensamentos, pensamentos. Posso vê-los, quase ouço seus pensamentos, mas não consigo decifrar.
Reflito também, planejo. Então me distancio, vou para a extremidade esquerda do banco e assim ganho amplitude visual e discrição para analisar melhor a cena.
Penso em sacar a câmera. Mas abandono imediatamente a idéia. É enigmático, misterioso, romântico demais para quebrar o encanto "roubando-lhes a alma".
Recém-casados? Adormeceram na praia? Fugitivos?
O rapaz roubou a noiva? Fugiram do casamento, ou apenas pegaram um barquinho e foram passar a primeira noite na ilha...
Uma simples lua de mel? Parece improvável, eles não carregam mala, sacola, mochila. Nada. Apenas o pequeno véu e o pacote de guardanapos bem amassados na mão do moço. E  mantém as roupas da véspera, agora sujas, também amassadas.
Sou a testemunha. Tantas pessoas no barco, mas sou eu quem percebe a dramaticidade daquele filme que se passa com os dois. Um momento que eles nunca vão esquecer. Posso vê-los 50 anos no futuro, contando a aventura para os netos... De certo eu não existo nesse futuro, nessa história de amor.
Uma pontada de inveja... Eu poderia acabar com isso nesse momento. Perguntar. Usar meu instinto de jornalista e falar: "Recém-casados?". Ensaio a fala. Seguro. Meu pedaço fotógrafa me diz para  fazer a foto que está pedindo, piscando na tela. Não. Não movo nenhum músculo. A cena pede que eu cuide cada minúsculo movimento... suavidade na respiração, para o passarinho não fugir.
O barco chega.
E o casal parte, de mãos dadas. Pés descalços. Firmes e decididos. Ela segura o vestido longo, sujo de areia. E saem sem olhar para trás. Sem tomar conhecimento da história que escreveram em mim.

4 comentários:

Anônimo disse...

Rachel,
Você observou, imaginou, leu e fotografou uma história de amor... só deles, misteriosamente deles...
Eles conseguiram colocar uma história de amor em seu coração.
O amor é assim... Sublimado pelo silêncio e a cumplicidade...
Evani

Thaisa disse...

Que lindo..

Eliziane disse...

Acho que o amor te disso, consegue tocar todos que estão por perto!!!! Adorei! Lindo!

Fernanda Moschetta disse...

Me encanta descobrir a cada leitura e fotografia,que ao expôr, você nos dá o prazer de viver a sua majestosidade, tu tens um dom de nos traduzir e ao mesmo tempo nos introduzir a instantes gloriósos que me emocionam, com pontos de vista e cuidados em simplesmente CURTIR ou ainda EMOLDURAR como verdadeiras fotografias.